Floresta habitada por dinossauros na Antártica?

Quando consideramos o modelo criacionista, a contradição desaparece.

antartica

No dia 1º de abril de 2020, a renomada revista Nature publicou um artigo científico[1] que registra, de forma inédita, a ocorrência de uma floresta tropical temperada no lado ocidental da Antártica, há 90 milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista], durante o período Cretáceo, época dos dinossauros. Os cientistas envolvidos nessa pesquisa, do Alfred Wegener Institute (AWI), da Alemanha, se utilizaram de uma nova técnica de perfuração do solo para extrair testemunhos (amostras de rocha ou solo) a uma profundidade aproximada de 30 metros abaixo do fundo do mar. No material analisado, encontraram vestígios de solos antigos, além de pólens e raízes fósseis.[2] Testemunhos como esses podem registrar muita informação sobre o clima passado, funcionando como “cápsulas do tempo” para parâmetros como temperatura média, pluviosidade e vegetação.[3]

De acordo com a pesquisa realizada, os cientistas concluíram o seguinte: (1) a temperatura média anual na Antártica há 90 milhões de anos [segundo a cronologia evolucionista] seria 13 °C, com um pico de 18,5 °C durante o verão (muito contrastante com o cenário atual no qual a temperatura dessa região varia de -60 °C a -10 °C); (2) a temperatura da superfície de lagos e rios da floresta poderia alcançar 20 °C; (3) a floresta que cobria a Antártica nessa época era densa e do tipo tropical temperada, com algumas áreas pantanosas, muito similar a florestas que hoje ocorrem na Nova Zelândia; (4) muito provavelmente não havia cobertura de gelo na Antártica; (5) a paleolatitude do oeste da Antártica (onde as amostras foram coletadas) era de 81,9°S, o que significa que o continente antártico não se encontrava em uma posição consideravelmente diferente da atual há 90 milhões de anos [idem] – hoje a costa ocidental da Antártica situa-se a uma latitude aproximada de 75°S.[1, 2, 3]

Exponho a seguir três pontos relevantes, do ponto de vista criacionista, concernentes às descobertas feitas na pesquisa em questão.

Em primeiro lugar, o que chama a atenção é a boa preservação das raízes fósseis encontradas. Elas estavam tão bem preservadas que foi possível identificar estruturas celulares.[3] Um dos pesquisadores chegou a afirmar maravilhado: “É como se nós tivéssemos perfurado um ambiente pantanoso moderno e você estivesse vendo o sistema de raiz vivo, pequenas partículas de plantas e pólen – mas tudo isso está preservado há 90 milhões de anos [idem]. É surpreendente.”[2]

O alto grau de preservação desses fósseis contrasta marcadamente com a ideia de que eles possuiriam 90 milhões de anos. Se considerarmos ainda que troncos de árvores muito bem preservados (a ponto de ser possível até mesmo extrair aminoácidos de proteínas das células deles) também foram descobertos em outra localidade da Antártica, fica ainda mais evidente que estamos diante de fósseis vegetais recentes.[4]

Outro ponto importante, segundo a cosmovisão criacionista, é que, de acordo com os cientistas envolvidos nessa pesquisa, dinossauros habitaram as florestas tropicais temperadas da Antártica.[2] Fósseis de diferentes espécies de dinossauros (inclusive do maior predador do começo do Jurássico, o Criolofossauro) e de répteis marinhos contemporâneos a eles já foram encontrados em diferentes localidades da Antártica.[5] Fósseis são o resultado de processos hídricos catastróficos nos quais animais ou vegetais são rapidamente sepultados por lama transportada por água. Portanto, a presença de fósseis (tanto de animais quanto de vegetais) em várias localidades do continente antártico aponta para uma grande inundação que devastou e soterrou (provavelmente depois de algum transporte) árvores, plantas e animais.

Por fim, algo que merece ser destacado trata-se de um evidente paradoxo que surge a partir das interpretações dos pesquisadores dos dados obtidos. Eles concluíram que na época em que a floresta tropical temperada cobria a superfície do continente antártico, há supostos 90 milhões de anos (durante o período Cretáceo), ele estaria em uma latitude próxima da atual, o que significa que já estaria sujeito naquela época, como ocorre hoje, a um período de mais de quatro meses de completa escuridão a cada ano durante o inverno. A questão paradoxal aqui é: Como seria possível uma floresta sobreviver a um período tão extenso de ausência da luz solar? Os cientistas buscaram solucionar esse problema adotando um modelo no qual a concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera naquela época seria cerca de três a quatro vezes superior à concentração atual. Como esse gás é responsável pelo efeito estufa, eles acreditam que sua maior concentração na atmosfera teria promovido um clima quente, mesmo durante os longos invernos escuros, possibilitando a sobrevivência da vegetação.[1, 3]

A contradição em questão surge em função dos pressupostos evolucionistas/uniformitaristas adotados pelos cientistas. Para a geologia convencional, tanto a separação dos continentes quanto a formação das rochas que compõem a coluna geológica demandam centenas de milhões de anos. Logo, para eles, faz sentido pensar que as rochas nas quais os fósseis de raízes foram encontrados possam ter 90 milhões de anos, e que mesmo após todo esse tempo a placa Antártica não tenha se movido consideravelmente. No entanto, ao admitirem tais ideias para interpretar os dados obtidos, que apontam para a presença de uma rica floresta na Antártica, o paradoxo mencionado aparece.

Embora tenham sugerido uma forma de resolver o dilema, a hipótese proposta não parece resolver todos os pormenores da questão. Por exemplo, em um estudo feito em 2011, pesquisadores analisaram microestruturas de ossos de dinossauros também do período Cretáceo, encontrados na Austrália – a qual estaria (de acordo com as premissas evolucionistas) dentro do Círculo Antártico nessa época –, em busca de evidências de hibernação desses animais, haja vista os extensos invernos escuros que eles teriam que suportar, e concluíram que eles não hibernavam – notaram que os ossos dos dinossauros que habitavam próximo à região polar sul não eram diferentes dos ossos de dinossauros de outras latitudes.[5, 6]

Quando consideramos o modelo criacionista, a contradição mencionada desaparece. Segundo esse modelo, a Antártica faria parte, há alguns milhares de anos, de um supercontinente formado por todos os continentes hoje existentes. Naquela época, o continente antártico se situaria em uma latitude bem menor, o que lhe permitiria abrigar uma rica floresta e uma fauna diversa. O dilúvio, que foi a maior catástrofe hídrica do planeta, e também o momento em que as placas tectônicas foram formadas e começaram a se mover rapidamente, explica tanto a vasta ocorrência de fósseis nessa região quanto a posição atual da Antártica.

(David Ramos Pereira é geólogo pela Universidade Federal do Pará e mestre em Geologia e Geoquímica pela mesma universidade)

Referências:

[1] Klages, J. P., Salzmann, U., Bickert, T., Hillenbrand, C. D., Gohl, K., Kuhn, G., … & Bauersachs, T. (2020). Temperate rainforests near the South Pole during peak Cretaceous warmth. Nature580(7801), 81-86.

[2] Dinosaurs walked through Antarctic rainforests. https://www.bbc.com/news/science-environment-52125369; acessado em 04/04/2020.

[3] Evidence of ancient rainforests found in Antarctica. https://edition.cnn.com/2020/04/01/world/antarctica-ancient-rainforest-scn/index.html; acessado em 04/04/2020.

[4] Stumped by Forests in Antarctica. https://answersingenesis.org/the-flood/stumped-forests-antarctica/; acessado em 04/04/2020.

[5] Antarctic Dinosaurs. https://www.britannica.com/topic/Antarctic-Dinosaurs-1812725; acessado em 05/04/2020.

[6] Dinosaurs did not hibernate. https://www.sciencealert.com/shedding-light-on-australias-dinosaurs-of-darkness; acessado em 05/04/2020.

Dinossauros estavam em declínio antes da extinção no fim do Cretáceo?

Um recém-publicado artigo na Royal Society Open Scienceestá causandofrenesi na comunidade científica. O estudo intitulado “Dinosaur diversification rates were not in decline prior to the K-Pg boundary” utilizou modelos computacionais de análises filogenéticas bayesianas (isto é, o método para construção de árvores filogenéticas) a fim de analisar as taxas de diversificação dos dinossauros antes da suposta extinção K-Pg (extinção essa causada por um meteoro), a qual teria exterminado cerca de 75% das espécies.[1] Os resultados indicaram que dinossauros estavam estáveis quando o meteoro os pegou de surpresa.

O curioso é que, em seu próprio artigo, os autores cautelosos disseram: “Os métodos filogenéticos atuais podem não fornecer o melhor teste para hipóteses de extinção de dinossauros.” Ok, se esse método usado por eles não é apropriado, então qual seria? Existe outro método que tem sido usado para os mesmos fins: a análise (contagem) de conjuntos fósseis de diversos grupos de dinossauros. “Mostramos que se você expandir o conjunto de dados para incluir árvores genealógicas mais recentes e um conjunto mais amplo de espécies, os resultados não apontam todos para essa conclusão”, afirmou em nota o autor principal do estudo, Joe Bonsor.[2]

Porém, esse outro método também apresenta suas dificuldades, como explicam os mesmos autores do estudo em uma entrevista à revista Galileu: “A análise é difícil, pois há lacunas no registro fóssil.”[2] Logo, qual seria o melhor método, uma vez que ambos apresentam limitações para se conhecer a verdade sobre esse assunto?

Nos últimos 20 anos, temos visto diversas pesquisas publicadas sobre esse tema. É possível perceber que, dependendo da metodologia empregada, chega-se a resultados diferentes. Basta manipular uma variável qualquer selecionada no estudo que os resultados se alteram também. Assim, tudo depende da interpretação que o cientista dará aos seus dados, e sabemos que cientistas diferentes carregam pressupostos diferentes. Por isso não podemos confiar logo de cara nos resultados frequentemente alardeados na grande mídia, porque seguramente no próximo ano será publicado um resultado discordante.

O que sabemos com certeza é que esse estudo de 2020 confirmou resultados anteriores publicados na New Scientist, em 2004,[3] e na Nature Communications, em 2019,[4] ambos sugerindo que os dinossauros estavam muito bem, obrigado! Embora a mídia tenha dado enfoque maior àqueles resultados equivocados que apontavam declínios dos bichos (que fique claro que isso vende e atrai mais a atenção do público).[5, 6] Independentemente disso, essa nova pesquisa que alega que os dinossauros estavam em seu auge, prosperando, nos chamou a atenção, pois vai ao encontro do que a Bíblia indica no livro de Gênesis, isto é, que estava tudo bem com a diversificação dos variados grupos taxonômicos de adoráveis dinos, quando veio o dilúvio e os sepultou, transformando-os posteriormente em fósseis.

(Everton Alves é divulgador de ciência)

Referências:

[1] Bonsor JA, Barrett PM., Raven TJ, Cooper N. Dinosaur diversification rates were not in decline prior to the K-Pg boundary. Royal Society Open Science 2020, 7: 201195.

[2] Dinossauros não estavam em declínio antes de serem extintos. Galileu (18/11/2020). Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2020/11/dinossauros-nao-estavam-em-declinio-antes-de-serem-extintos-conclui-analise.html

[3] Hecht J. Dinosaurs died out at height of success. New Scientist (13/10/2004). Disponível em: https://www.newscientist.com/article/mg18424691-700-dinosaurs-died-out-at-height-of-success/

[4] Chiarenza, A.A., Mannion, P.D., Lunt, D.J. et al. Ecological niche modelling does not support climatically-driven dinosaur diversity decline before the Cretaceous/Paleogene mass extinction. Nat Commun 2019; 10: 1091.

[5] Stephen L. Brusatte, Richard J. Butler, Albert Prieto-Márquez & Mark A. Norell. 2012. Dinosaur morphological diversity and the end-Cretaceous extinction. Nature Communications 2012; 3: 80.

[6] Sakamoto M, Benton MJ, Venditti C. Dinosaurs in decline tens of millions of years before their final extinction. Proc Natl Acad Sci U S A. 2016; 113(18):5036-40.